Ninguém imagina, descendo de carro num passeio pitoresco pela Estrada da Graciosa sentindo a brisa fresca da Serra do Mar e o perfume das flores que enfeitam a região sempre em direção a bucólica cidade de Morretes (Paraná, Brasil), que no pequeno lugarejo de Porto de Cima, que hoje apenas serve de passagem para turistas, tivesse nascido um dos maiores escultores brasileiros de nome João Zanin Turin, filho de imigrantes italianos.
E quem passa pelo local vê uma pequena Igreja Católica, um campo aberto para a prática de futebol, algumas casas e poucos habitantes, dando a impressão de um cenário onde o tempo custa a passar; e por mais imaginação que se tenha, seria difícil descrever como era este mesmo lugar em 1878, ano em que João nasceu.
O menino com certeza estava longe de tudo quando deu seus primeiros passos e aprendeu a falar, com poucas perspectivas de um futuro promissor. Mesmo assim conseguiu superar as adversidades e desvendar o mundo graças a sua criatividade de artista. Desde cedo, começou fazendo pequenos moldes de argila do corpo humano e tentando dar forma de animais para as pedras tiradas do leito do rio Nhundiaquara, que por ali margeia, indo ao encontro da bucólica cidade de Morretes.
Com nove anos de idade, seus pais mudaram para Curitiba. Na adolescência começou a trabalhar como ferreiro, depois marceneiro e finalmente torneiro. Nas horas vagas buscava aperfeiçoar os moldes que aprendera rusticamente, realçando sempre a estrutura do corpo humano e dos animais, se aventurando, também, na pintura em tela, onde se revelou um talentoso artista.
Só que a pintura foi aos poucos sendo deixada de lado porque João Turin se dedicou de corpo e alma no mundo mágico da escultura. Seu objetivo era poder viver de sua arte. Claro que por Curitiba ser uma cidade pequena, logo seus trabalhos artísticos ficaram conhecidos e comentados, daí o nome João Turin passou a ser sinônimo de pura arte.
Frequentou a importante Escola de Artes e Indústria do Paraná como aluno e depois professor, importante fonte de conhecimento fundada pelo português Antonio Mariano de Lima (Trás-os-Montes, Portugal, 1858 – Manaus, Amazonas, 1942), a qual servia de base não só para impulsionar a sensibilidade da comunidade local como, principalmente, fomentar a indústria (como diz o próprio nome) através do desenho técnico e artístico, servindo de base para a arquitetura, criação de produtos, design, ilustrações, desenhos para rótulos litográficos, entre outros. Aliás, muitos elementos demonstram que essa escola acabou dando ensejo à primeira universidade brasileira (1912), a Universidade Federal do Paraná, que se mantém interruptamente até hoje.
Mas como quase sempre acontece para os indivíduos talentosos, as portas da oportunidade logo se escancaram, e com João não foi diferente, pois aos 27 de idade foi agraciado com uma bolsa de estudos do Governo do Estado do Paraná para se aperfeiçoar na Real Academia de Belas Artes da cidade de Bruxelas, na Bélgica. Lá ele conquistou seu espaço e sua arte apareceu para uma Europa em efervescência. E para quem sentiu quão prazeroso para qualquer artista é poder desfrutar da vida e sobreviver pela arte, seis anos depois deixou Bruxelas para trás e foi morar em Paris. Na cidade luz, Turin enfrentou o período da primeira grande guerra, inclusive alistando-se na Cruz Vermelha e trabalhando por um período no jornal “Le Matin”, enquanto fazia alguns trabalhos. Mas já familiarizado e reconhecido internacionalmente pelas esculturas e peças que criava, fez diversas exposições obtendo invejável êxito.
Porém, a saudades de seu Paraná e de sua gente acabou falando mais alto e João Turin em 1922 fechou a porta de seu ateliê e retornou a Curitiba, deixando o seu espaço na Rue Vercingentorix em Montparnasse para outro grande escultor nacional, Brecheret.
Ao retornar ao Brasil, logo no centenário da independência do Brasil, expôs a escultura do mártir “Tiradentes” no Rio de Janeiro, tendo inclusive recebido um prêmio pela participação, o qual não lhe apeteceu, e inclusive o desmotivou a participar de salões por bom tempo.
Mas sempre muito festejado, jamais parou de trabalhar em sua arte, esculpindo monumentos, esculturas, bustos e fazendo relevos, pinturas, cerâmicas e ilustrações. Foi fecundo na sua arte criadora.
E, pouco tempo de seu retorno, associou-se com outros artistas em busca de uma identidade regional, quando criaram o denominado “estilo paranaense de ornamentação arquitetônica”, que consistia em estilizar tudo que fosse da fauna e da flora paranaense, com destaque à arvore nativa Araucária angustifolia, o Pinheiro, que serviu de grande base para o chamado “Movimento Paranista”.
Nessa trajetória de realizações cabe fazer um parêntese especial, que foi o seu amor em esculpir os animais e suas musculaturas, em especial onças, tigres, leões, cobras e cachorros, tendo se sobressaído como gênio neste tipo de obra. Para observação dos animais, não eram raras as suas idas aos zoológicos e à própria mata, levando consigo comida para que eles pudessem quietamente posar como modelos.
O grande artista João Turin faleceu em 1949, com 71 anos de idade, em Curitiba. Foi um paranaense que amou muito a sua origem, sendo certamente o mais antigo precursor da escultura do Estado, gerado e forjado na sua própria terra.
O seu acervo é enorme, diversificado, e grande parte preservado no Memorial Paranista, localizado no Parque São Loureço (Curitiba, Paraná, Brasil), inaugurado no dia 14 de Maio de 2021, contando com um jardim de esculturas e uma exposição permanente do artista com quase 100 obras, graças uma junção de esforços da Família Lago (detentora dos direitos autorais patrimoniais), Prefeitura Municipal de Curitiba e Governo do Estado do Paraná.
Neste Memorial, vale destacar duas interessantes peças escultóricas post mortem: Um exemplar de uma Pietá – em baixo relevo, extraído da Igreja de Saint Martin, em Condé-sur-Noireau na França, concebida em 1917 ainda durante a Primeira Guerra Mundial, em homenagem aos combatentes, bem como a escultura intitulada “Marumbi” ampliada em San Francisco, na Califórnia, em proporções heroicas com quase 3 metros de altura, representando duas onças lutando, num esboço de grande movimento, demonstrando a demarcação do território para a eternidade.


